Será que estamos criando pequenos cada vez mais
impacientes? Entenda quais as consequências disso e o que você pode fazer para
ajudá-los a serem menos ansiosas.
Sabe aquela clássica cena da família jantando no
restaurante enquanto a única criança da mesa está completamente alheia à
conversa, hipnotizada por algum desenho no celular? Ou então aquela de uma mãe
morrendo de vergonha e colocando qualquer coisa no carrinho, só para o filho
parar de espernear no meio do supermercado e ir logo para casa? Pois é, elas
acontecem - e muito!
Fazer birra é um comportamento normal das crianças,
afinal, faz parte da infância testar os limites. A questão é que, com a
tecnologia cada vez mais ao alcance das (pequeninas) mãos, a paciência está
virando artigo de luxo. "Vivemos num contexto em que tudo se resolve muito
rapidamente com apenas um clique. Os avanços tecnológicos fazem com que as
crianças cresçam num mundo em que as coisas acontecem na hora em que elas
querem. Não precisam nem esperar o desenho preferido na TV, já que assistem
quando têm vontade e na plataforma que preferem", explica Roberta Bento,
especialista em aprendizagem baseada no funcionamento do cérebro pela
Universidade da Califórnia e Duke University; e em aprendizagem cooperativa
pelas Universidades de Minnesota e de San Diego.
Além da questão tecnológica, a formação das
famílias atuais também influencia nessa pressa que os pequenos têm para serem
atendidos. "Antigamente, tinha-se mais filhos e até nas refeições era
preciso esperar a sua vez de ser servido. Hoje, é cada vez mais comum que os
casais tenham só uma criança, que sempre tem tudo na hora que quer",
lembra a especialista, que completa: "elas vivem num mundo que parece ser
totalmente adaptado e pronto para os seus desejos".
Como ensinar os filhos a esperar
Não adianta, não tem cartilha ou fórmula mágica
para criar filhos mais pacientes - esse é um exercício diário, que deve ser
trabalhado naquelas pequenas situações do cotidiano. Por exemplo, ao invés de
aproveitar enquanto as crianças estão na escola para ir ao supermercado, vá com
elas fazer as compras e explique o que vocês estão fazendo. "Na sala de
espera de um consultório médico, invente alguma brincadeira para passar o tempo,
que não envolva um celular. Brinque de procurar letras, de encontrar objetos de
determinada cor
Aproveite para conversar com seu filho", aconselha
Roberta.
E não custa lembrar: o comportamento da criança na
rua, na escola, nos restaurantes e em todos os outros ambientes que ela
frequenta é apenas um reflexo de como ela vive em casa e, claro, de como os
pais se comportam. Portanto, não adianta esperar que seu filho saiba esperar
se, em casa, ele tem tudo quando deseja e se vê os adultos na maior correria a
todo momento. Além disso, é preciso ter consciência de que a paciência precisa
ser ensinada. "Essa não é mais uma competência que se desenvolve sozinha e
não é interessante que os pais pensem que, dado o contexto atual, ela é
desnecessária, já que tudo acontece muito rápido. É preciso que eles se
empenhem dia a dia", ressalta a especialista.
Por que eles precisam ter paciência
Uma criança que é ensinada a esperar se torna uma
pessoa mais educada, pois ao entender que o mundo não gira ao seu redor, ela
cresce menos egocêntrica e vive melhor em sociedade. Ela aprende, por exemplo,
que é preciso deixar as pessoas saírem do metrô antes de entrar e que as coisas
passam por um processo antes de acontecer - a comida não fica pronta por mágica
e não chegamos à praia de uma hora para outra. Tudo leva tempo e é preciso
saber lidar com isso.
Criar filhos menos ansiosos também ajuda no
aprendizado, já que eles conseguem parar para ouvir e, então, formular
argumentos. "Os pequenos mais pacientes também conversam melhor, já que
conseguem esperar o tempo de fala do outro para poder responder - e estabelecer
essa linha de raciocínio demanda muita paciência. Além disso, a criança aprende
a considerar o outro e, assim, a respeitar as diferenças", destaca
Roberta.
A importância do tédio
Natação, inglês, judô, futebol, balé
A agenda dos
pequenos parece estar cada vez mais cheia de atividades e o tempo livre -
aquela famosa horinha de não fazer nada - está ficando raro. "Nós
percebemos uma angústia dos pais em nunca deixar as crianças entediadas, mas a
verdade é que elas precisam lidar com isso. Vivenciar o tédio é bom porque ele
gera a necessidade da criatividade para fazer alguma coisa interessante, além
de possibilitar um descanso ao cérebro", finaliza Roberta. Portanto, chegar
a um equilíbrio é fundamental e trabalhar a ansiedade aos poucos dentro de casa
é um caminho para criar filhos mais pacientes e preparados para viver bem em
sociedade.



